A trajetória de Aspásia de Mileto situa-se, no maior período possível, entre 470-400 a.E.C. Sua vida em Atenas é marcada pela união com Péricles por volta de 445 (com quem teve o jovem Péricles em 440) e, após a morte do general, pelo casamento com o ateniense Lysicles em 428. A personagem é descrita como simultaneamente “nebulosa”, pelo esquecimento histórico das mulheres, e “clara”, por sua persona consolidada na Tradição Clássica entre os séculos XVIII e XXI como exemplo de protagonismo feminino.
A historiografia recente (Bicknell, Henry, Gale, Loraux) afasta a narrativa de que Aspásia teria sido uma escrava e sustenta sua origem aristocrática. Ela pertenceria à casa de Axíoco de Mileto, vinculando-se a Atenas através de laços familiares e políticos com a casa de Alcibíades, o velho, que a teria trazido à cidade por volta de 450. Esta linhagem nobre justifica por que seu filho com Péricles foi considerado cidadão pleno, apesar da lei de 451 que restringia a cidadania.
Embora a tradição da comédia antiga (como em Aristófanes) e os relatos de Plutarco a rotulem como hetaira ou dona de bordel — inclusive culpando-a pelo “caso Mégara” e pelo estopim das Guerras do Peloponeso —, o texto sugere que tal atividade seria uma forma de independência financeira através de um “salão” intelectual. Aspásia foi uma professora de retórica admirada e educadora, embora tenha enfrentado um processo por impiedade movido pelo poeta Hermipo, que a acusava de corromper mulheres livres para o prazer de Péricles.
Obra e Contribuição Intelectual
A influência de Aspásia manifesta-se predominantemente através dos relatos da escola socrática. No diálogo Menexeno, Platão sugere que ela foi a verdadeira autora do famoso discurso fúnebre de Péricles (431 a.E.C.). Através da ironia socrática, o texto revela Aspásia como uma mestra que ensina a arte da palavra como instrumento político, estruturando o elogio aos mortos em três elementos: a nobre estirpe, a educação e a dignidade dos feitos. Ela surge como uma figura ambígua: ao mesmo tempo sofista que fabrica discursos e sábia educadora.
Em Xenofonte, especificamente no Econômico, Aspásia é apresentada por Sócrates como uma autoridade superior a ele na explicação da formação da boa esposa e na gestão da prosperidade doméstica. Suas lições fundamentam a complementaridade e a igualdade dos sexos na administração do patrimônio, propondo que a harmonia do casal depende da educação de ambos. Na obra Memorabilia, ela é citada como especialista na arte do “casamenteiro”, enfatizando a importância da verdade na união para evitar que a amizade se transforme em ódio.
Fontes e Legado Histórico
A vida de Aspásia fascina a posteridade, desde romances dos séculos XIX e XX até os feminismos contemporâneos. Sua figura ressoa nos espaços de feitos tradicionalmente masculinos devido à sua independência e sabedoria. Para reconstruir sua existência, o texto aponta um “palimpsesto” de fontes:
- Contemporâneos: Aristófanes (Acarnenses), Xenofonte (Econômico e Memorabilia) e Platão (Menexeno).
- Discípulos de Sócrates: Diálogos (hoje perdidos) de Antístenes e Ésquines.
- Autores do Período Romano (Séc. I-III): Plutarco, Cícero, Diógenes Laércio, Quintiliano, Luciano e Ateneu.
- Fontes Tardias: Libânio (Séc. IV) e a enciclopédia bizantina Suda (Séc. X).
A recuperação da palavra de Aspásia é uma tarefa que deve começar pela investigação das palavras socráticas, onde ela caminha como sujeito de discurso e mestre da arte de viver e falar.
Fonte: Unicamp