Na 2ª Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, realizada em 1910, em Copenhague (Dinamarca), Clara Zetkin propôs homenagear as 129 operárias que morreram queimadas em uma fábrica de Nova Iorque após reivindicarem a redução da jornada de trabalho. A proposta foi instituir uma jornada mundial de luta no 8 de março, em homenagem a essas heroicas trabalhadoras têxteis. Essa iniciativa selava simbolicamente a íntima relação entre a caminhada libertadora das mulheres e a luta dos trabalhadores pela sua emancipação social.
Em um mundo marcado por um capitalismo em crise, pela crescente financeirização da economia, pelo desinvestimento no setor produtivo e pelo aumento do desemprego. Ao mesmo tempo, observamos a desregulamentação, a informalização e a precarização das relações de trabalho. A pandemia da Covid-19 aprofundou esse cenário e evidenciou ainda mais as desigualdades existentes, demonstrando como as mulheres foram as maiores vítimas dessa conjuntura, sobretudo por estarem majoritariamente inseridas no trabalho informal e precário.
Feminismo x Luta de Classes
Vale destacar que os marxistas, ao longo do tempo, sempre se preocuparam com a opressão das mulheres e ofereceram uma interpretação científica para o fenômeno, afirmando que “a questão feminina é uma questão social e só como tal poderá ser resolvida”. Realizaram uma das primeiras análises sistemáticas sobre o tema, desnaturalizando a condição de subordinação feminina e situando sua origem em um processo histórico-social. Dessa forma, superaram abordagens essencialistas que atribuíam à natureza humana a base da dominação e da subordinação.
Muitas críticas foram dirigidas às teses marxistas sobre a questão da mulher, sobretudo a de que teriam deixado de lado sua especificidade e reduzido sua condição a uma questão econômica, como um apêndice das relações produtivas. No livro “A Ideologia Alemã”, Marx e Engels demonstram compreender esse aspecto como parte de um único processo. Ali afirmam que a reprodução e a manutenção da vida dos indivíduos, assim como as relações sociais que eles estabelecem, são tão importantes quanto as relações de produção. Essa concepção amplia a compreensão coletiva da subjetividade humana.
Outra resposta a essa questão foi dada por Engels em 1890, em carta a Bloch, quando esclareceu: “(…) segundo a concepção materialista da história, o fator que, em última instância, determina a história é a produção e a reprodução da vida real. Nem Marx nem eu afirmamos, uma vez sequer, algo mais do que isso. Se alguém o modifica, afirmando que o fato econômico é o único fato determinante, converte aquela tese numa frase vazia, abstrata e absurda. A situação econômica é a base, mas os diferentes fatores da superestrutura que se levanta sobre ela — as formas políticas da luta de classes e seus resultados, as constituições que, uma vez vencida uma batalha, a classe triunfante redige etc, as formas jurídicas, e inclusive os reflexos de todas essas lutas reais no cérebro dos que nelas participam, as teorias políticas, jurídicas, filosóficas, as idéias religiosas e o desenvolvimento ulterior que as leva a converter-se num sistema de dogmas — também exercem sua influência sobre o curso das lutas históricas e, em muitos casos, determinam sua forma, como fator predominante”. (grifos de Engels)
Marx e Engels demonstraram em suas obras que a opressão da mulher coincide com o surgimento da propriedade privada dos meios de produção e das classes sociais. Indicaram que a história da submissão feminina começa quando a mulher é afastada da produção social. Essa ideia aparece já no Manifesto do Partido Comunista, de 1848, onde está presente a concepção de que somente a socialização da propriedade pode fazer desaparecer a situação de submissão feminina.
No texto “A Questão Judaica”, Marx faz a distinção entre emancipação política e emancipação humana, indicando os limites da igualdade jurídica ou formal como instrumento de reversão da subordinação vivida pelas mulheres. A subordinação não cessará apenas com a eliminação das distinções legais, mas exige uma transformação das estruturas econômicas e políticas geradoras de desigualdades.
Em 1884, dando continuidade aos estudos de Marx sobre Morgan, Engels publica “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, onde analisa as diversas fases históricas do desenvolvimento da humanidade para comprovar que as mudanças na condição da mulher sempre corresponderam às grandes transformações sociais, ao desenvolvimento da ciência e da técnica. Analisa a involução da situação da mulher, das condições de igualdade na época do considerado comunismo primitivo até a condição da chamada civilização, mudança que se operou a partir da exclusão da mulher do processo produtivo social.
Daí sua conclusão: “A emancipação da mulher e sua equiparação ao homem são e continuarão sendo impossíveis enquanto ela permanecer excluída do trabalho produtivo social e confinada ao trabalho doméstico.”
Augusto Bebel, um dos fundadores da II Internacional, também se dedicou ao tema e escreveu “A Mulher e o Socialismo” em 1889. Ele tem o mesmo argumento de Marx e Engels sobre a questão e afirma: “Todas as opressões sociais encontram sua raiz na dependência econômica do oprimido em sua relação com o opressor. Desde os tempos mais remotos, a mulher se encontra nessa situação: a história do desenvolvimento da sociedade humana o ensina”.
Clara Zetkin colocou entre os objetivos da 2º Internacional a paridade entre os sexos e a defesa das condições de vida e trabalho das mulheres proletárias. Além da luta pelo sufrágio feminino, defendia uma legislação mais humana para as condições de trabalho das operárias e a organização política específica das mulheres trabalhadoras. Sofreu críticas por diferenciar a posição de classe na luta feminina, mas contribuiu decisivamente para compreender a dimensão específica da opressão das mulheres.
Lênin, por sua vez, deixou clara a estratégia da luta pela emancipação feminina como parte integrante da revolução proletária. Após a Revolução Russa, participou da elaboração de leis que ampliaram direitos das mulheres. Defendia o combate à dupla jornada de trabalho e afirmava: “a tarefa principal do movimento operário feminino consiste na luta pela igualdade econômica e social da mulher e não somente pela igualdade formal. A tarefa principal é incorporar a mulher ao trabalho social produtivo, arrancá-la da escravidão do lar, liberta-la da subordinação – embrutecedora e humilhante- ao eterno ambiente da cozinha e do quarto das crianças”. É uma luta prolongada que requer uma radical transformação da técnica social e dos usos e costumes.
Também afirmou: “Não se pode assegurar a verdadeira liberdade nem edificar a democracia e o socialismo sem chamar as mulheres ao serviço cívico e à vida política.”
Autor: Ana Rocha
Fonte: Vermelho
Jornalista, psicóloga, mestra em serviço social