A liberação americana de até 1,5 milhão de barris diários da Reserva Estratégica de Petróleo (SPR) exemplifica como estoques robustos conferem soberania energética a nações poderosas. Anunciada pelo secretário de Energia Chris Wright na semana retrasada (11), a operação totaliza 172 milhões de barris e integra a maior ação coordenada da história da Agência Internacional de Energia (IEA), com 400 milhões de barris liberados por 32 países-membros. O objetivo é conter a volatilidade global dos preços, desencadeada pelos ataques de Israel e Estados Unidos contra o Irã e por interrupções do fluxo no Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo mundial.
China e EUA: estoques como instrumento de poder
A China é hoje o país com o maior volume absoluto de petróleo estocado no mundo. Estimativas de monitoramento indicam algo entre 1,2 e 1,3 bilhão de barris em reservas estratégicas e comerciais, o que cobre em torno de quatro meses de suas importações e equivale, em termos de consumo doméstico, a algo como 70 a 80 dias de demanda interna. Mesmo sendo o maior consumidor do planeta, com cerca de 16,4 milhões de barris por dia, Pequim dispõe de um colchão suficiente para atravessar choques de oferta sem paralisar a economia, garantindo margem de manobra geopolítica.
Os Estados Unidos produzem cerca de 70% do petróleo que consomem, mas mantém cerca de 415 milhões de barris na reserva (SPR). Em relação ao consumo total americano — aproximadamente 20,5 milhões de barris por dia — esse volume corresponderia a pouco mais de 20 dias de uso. Na prática, porém, a reserva funciona como um “freio de emergência” econômico: com capacidade de liberação de até 4,4 milhões de barris diários, o governo influencia os preços internos e as cotações internacionais da commodity.
Análise dos Especialistas: O “Segundo Ato”
“Estamos no ‘Segundo Ato’ do retorno da segurança energética. A guerra no Irã é um cenário de pesadelo potencial para o Estreito de Ormuz, mas os mercados estão mais resilientes graças aos estoques estratégicos da IEA, China e EUA”, afirmou Daniel Yergin, vice-presidente da S&P Global e autor de The Prize. Já Meghan O’Sullivan, professora de Harvard e ex-assessora da Casa Branca, analisa que “as reservas estratégicas de EUA e China moldam a soberania energética. A coordenação da IEA mostra que o sistema global tem amortecedores importantes”, destacou.
Japão, Europa e Índia: camadas de proteção
Entre os aliados de Washington, o Japão se destaca com 470 milhões de barris, garantindo cerca de 254 dias de consumo doméstico. A Coreia do Sul possui entre 150 e 200 milhões de barris, suficientes para 60 a 75 dias de consumo. Na Europa, a Alemanha mantém 177 milhões de barris (75-80 dias de consumo), enquanto Espanha, França, Reino Unido e Itália completam o pelotão com estoques que variam de 40 a 100 dias de autonomia interna.
Na outra ponta, a Índia ilustra a vulnerabilidade de grandes importadores. Com reservas de apenas 25 a 39 milhões de barris diante de um consumo de 5,2 milhões diários, Nova Délhi conta com menos de 10 dias de proteção direta, ficando altamente exposta à instabilidade no Golfo Pérsico.
Brasil: potência produtora sem “escudo” estratégico
O contraste é sensível para o Brasil. O país figura entre os grandes produtores globais de petróleo, com produção acima de 3,9 milhões de barris por dia e reservas fósseis provadas de 16,8 bilhões de barris. Apesar de ser exportador líquido de óleo cru (1,7 milhão/dia), o Brasil não possui uma Reserva Estratégica Nacional estruturada.
Diferente das potências que mantêm reservas estratégicas paradas para emergências, o Brasil conta apenas com estoques operacionais — o óleo que já está circulando no sistema logístico de refinarias e dutos. Segundo dados do setor, esse volume totaliza entre 45 e 55 milhões de barris. Embora o número pareça expressivo, ele garante uma autonomia de apenas 15 a 20 dias de consumo doméstico. Na prática, como o país é dependente da importação de cerca de 30% do seu diesel, qualquer interrupção no fluxo internacional atingiria o transporte de cargas em menos de uma semana, evidenciando a fragilidade do nosso ‘escudo’ energético.
Soberania e o cenário de pesadelo
Em um cenário extremo de fechamento prolongado do Estreito de Ormuz, analistas projetam o barril de Brent entre US$ 140 e US$ 180, com risco de recessão global. Enquanto as grandes potências usam suas reservas para comprar tempo e estabilidade, países sem estoques soberanos, como o Brasil, ficam à mercê da próxima onda de choques internacionais.
Fonte: SBBA