IBGE: NOVO RETRATO DAS FAMÍLIAS EXPÕE SOBRECARGA DAS MULHERES

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O novo retrato das famílias brasileiras divulgado pelo IBGE revela uma transformação profunda na organização social do país. Pela primeira vez desde o início da série histórica, casais com filhos deixaram de representar a maioria das famílias brasileiras. Em paralelo, cresce o número de mulheres que sustentam e cuidam dos filhos sozinhas, fenômeno que revela como as transformações familiares brasileiras seguem acompanhadas pela concentração do cuidado sobre as mulheres.

Os dados fazem parte do Censo Demográfico 2022 divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo o levantamento, o Brasil possui atualmente 72,3 milhões de unidades domésticas, das quais 57,8 milhões são compostas por famílias e 13,6 milhões por pessoas vivendo sozinhas.

Casais com filhos deixam de ser maioria e mães solo crescem no país

Uma mudança importante observada pelo instituto está na redução histórica das famílias formadas por casais com filhos. Em 2000, elas representavam 56,4% do total das famílias brasileiras. Em 2022, passaram a representar 42%.

Ao mesmo tempo, o número de mulheres sem cônjuge vivendo com filhos cresceu continuamente nas últimas décadas. Hoje, elas representam 13,5% das famílias brasileiras (cerca de 7,8 milhões de mulheres). Já os homens sem cônjuge com filhos correspondem a apenas 2% dos arranjos familiares.

Os números indicam uma mudança estrutural na sociedade brasileira e ajudam a compreender transformações nas relações familiares, na dinâmica econômica e na organização social do país.

Os censos também apontam uma mudança importante no perfil das pessoas responsáveis pelos lares brasileiros. Em 2000, 77,8% das famílias tinham homens como responsáveis. Em 2022, esse percentual caiu para 51,2%.

Segundo o IBGE, fatores como o aumento da escolaridade feminina, o ingresso das mulheres no mercado de trabalho e a redução da fecundidade ajudam a explicar essa transformação na estrutura das famílias brasileiras.

O levantamento mostra ainda avanço no nível de instrução das pessoas responsáveis pelos lares. Entre 2000 e 2022, o percentual de responsáveis sem instrução ou com ensino fundamental incompleto caiu de 66,1% para 34,7%. Já aqueles com ensino superior completo passaram de 6,3% para 17,4%.

Além do crescimento das famílias chefiadas por mulheres, o levantamento também mostra outra mudança importante: o aumento expressivo de pessoas morando sozinhas. Em 2000, o país tinha 4,1 milhões de unidades domésticas unipessoais. Em 2022, esse número chegou a 13,6 milhões — quase um em cada cinco lares brasileiros.

Também cresceu o número de casais sem filhos, que passaram de 13% para 24,1% das famílias no período. As mudanças observadas indicam que o Brasil vive uma profunda transformação nos modelos familiares, cada vez mais distantes do padrão tradicional centrado no casal com filhos.

O levantamento também reacende debates sobre a realidade das mulheres responsáveis pelos lares brasileiros, especialmente aquelas que criam os filhos sem a presença de um cônjuge.

No documento-base da 3ª Conferência Nacional sobre a Emancipação das Mulheres, o PCdoB critica políticas públicas baseadas em um único modelo tradicional de família. Segundo o texto, ao ignorar a realidade das mulheres que criam os filhos sozinhas, o Estado deixa de atender milhões de famílias brasileiras e acaba aprofundando desigualdades no acesso a direitos como educação, saúde e moradia.

Nordeste concentra maiores índices de mães solo

O mapa aponta ainda que os maiores percentuais de mulheres sem cônjuge com filhos estão concentrados principalmente nas regiões Norte e Nordeste, historicamente marcadas por desigualdades sociais mais profundas.

Sergipe lidera o ranking nacional, com 21,61% das famílias nessa configuração. Em seguida aparecem Bahia (20,4%), Amapá (20,23%), Ceará (19,27%) e Pernambuco (20,13%).

Os dados do IBGE mostram que as transformações nas famílias brasileiras ocorreram lado a lado com o crescimento das mulheres como principais responsáveis pelos lares do país.

Ao mesmo tempo em que o modelo tradicional de casal com filhos perde espaço, aumenta o número de mulheres que sustentam a casa, criam os filhos e concentram sobre si o trabalho cotidiano do cuidado.

A mudança no perfil das famílias brasileiras também evidencia os limites de políticas públicas ainda estruturadas em torno de um único modelo familiar, enquanto milhões de mulheres seguem assumindo praticamente sozinhas a responsabilidade pela sobrevivência e organização da vida doméstica.

O novo retrato das famílias brasileiras revela um país em transformação, marcado por novos arranjos familiares, mas também pela permanência da sobrecarga feminina no cuidado e na sustentação da vida.

Fonte: Vermelho

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