BC ELEVA ESTIMATIVA DO PIB PARA 2%, MAS JUROS ALTOS ASFIXIAM O BRASIL PRODUTIVO

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O Banco Central (BC) surpreendeu o mercado ao elevar para 2% a estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para o ano de 2026. A revisão consta no Relatório de Política Monetária (Copom) do segundo trimestre, divulgado ontem (25). A projeção otimista contrasta com um cenário externo adverso, marcado por conflitos armados globais que tensionam as cadeias de suprimentos, e um ambiente doméstico de política monetária estritamente contracionista. No entanto, para analistas e entidades do setor produtivo, o otimismo da autoridade monetária esconde uma contradição gritante: o Brasil cresce apesar da política econômica do próprio BC, e não graças a ela.

A decisão do BC de revisar para cima a expectativa de crescimento — que anteriormente girava em torno de 1,5% — reflete uma economia brasileira que tem demonstrado uma “resiliência incomum” diante dos juros elevados. O Relatório de Política Monetária destaca que, apesar do cenário internacional hostil — com guerras na Europa e no Oriente Médio mantendo o preço das commodities e do frete marítimo em rota de alta —, a economia doméstica encontrou motores próprios de expansão.

A autoridade monetária aponta que o setor de serviços, que representa a maior fatia do PIB, continua surpreendendo positivamente. A inércia da demanda interna, somada a um mercado de trabalho historicamente aquecido, tem funcionado como um “colchão” que absorve os choques externos e os efeitos da política monetária restritiva. Para o BC, a economia brasileira provou ser menos sensível aos juros altos do que os modelos econométricos tradicionais previam.

A manutenção da taxa Selic em patamares estratosféricos sob a justificativa de um controle ortodoxo da inflação tem se mostrado uma faca de dois gumes. Se por um lado a política contracionista arrefece a demanda e ajuda a ancorar preços no curto prazo, por outro ela atua como um verdadeiro “imposto” sobre o desenvolvimento, estrangulando o setor produtivo, endividando as famílias e engessando a capacidade do Estado de investir em infraestrutura.

O motor do consumo e a massa salarial

O grande motor desse crescimento de 2% é o consumo das famílias. Apesar do crédito mais caro e do endividamento das famílias ainda em patamares elevados, a massa de renda real tem crescido de forma sustentada. A taxa de desemprego em níveis baixos e os reajustes salariais acima da inflação garantiram poder de compra à população, especialmente nas classes C e D, que têm impulsionado o varejo e o setor de serviços.

Além disso, o agronegócio e a indústria extrativa têm contribuído para a balança comercial, garantindo um fluxo constante de dólares que ajuda a ancorar o câmbio e sustentar a atividade econômica, mesmo com o Custo Brasil elevado.

No entanto, a camisa de força imposta pelo BC drena os recursos fiscais e desestimula o investimento privado. A obsessão pelo controle da inflação pela via exclusiva dos juros ignora que a inflação brasileira tem fortes componentes de custo (câmbio, energia, insumos importados) que não serão resolvidos com a destruição do emprego e da renda.

Para analistas, o dado acende um alerta amarelo na autoridade monetária: um crescimento acima do potencial com a Selic nas alturas indica que a inflação de serviços pode continuar pressionada, dificultando a convergência para a meta.

Inflação de serviços e o hiato do produto

A análise do relatório revela o dilema clássico do atual ciclo econômico: o hiato do produto (a diferença entre o PIB real e o PIB potencial) está se fechando rapidamente. Quando a economia cresce a 2% com juros acima de dois dígitos, significa que a demanda está aquecida e as empresas têm poder para repassar preços, especialmente no setor de serviços, onde a inflação tem mostrado maior aderência.

O relatória sugere que, para o restante de 2026, o Banco Central pretende navegar entre a força da economia brasileira e manter o “pé no freio” para garantir que o crescimento robusto não se transforme em escalada inflacionária. Uma sinalização de busca perene por justificativas para manter os juros altos. Com as guerras globais ameaçando os preços dos alimentos e dos combustíveis, o relatório deixa claro que sua política monetária “seguirá vigilante”, e o ciclo de flexibilização dos juros pode demorar mais do que o setor produtivo e o governo imaginam.

O banquete dos rentistas e o sucateamento produtivo

A principal crítica ao modelo atual do Copom é o seu viés anti-indústria e pró-rentismo. Com os juros básicos nas alturas, o capital financeiro encontra no mercado de títulos públicos federais um porto seguro e altamente lucrativo, sem a necessidade de assumir qualquer risco real. É o banquete da especulação financeira, onde o dinheiro “faz dinheiro” de forma quase mágica, apenas por financiar a dívida pública.

Em contrapartida, o setor produtivo sangra. O crédito torna-se escasso e caríssimo para empresas, inviabilizando projetos de expansão, compra de maquinário e inovação tecnológica. O “Custo Brasil” é artificialmente inflado pela própria autoridade monetária, que prefere ver a indústria nacional estagnar a aceitar uma inflação de serviços que poderia ser combatida com políticas estruturais de aumento da oferta, e não apenas com a destruição da demanda via juros. O resultado é a desindustrialização acelerada e a dependência de um PIB que cresce empurrado apenas pelo consumo básico e pelo agronegócio.

O preço social: famílias reféns e o Estado de mãos atadas

O impacto da política contracionista do BC não se limita aos balanços das corporações; ele recai pesadamente sobre os ombros das famílias brasileiras. O crédito caro corrói o poder de compra, mantém o endividamento das famílias em níveis recordes e transforma o sonho da casa própria ou do financiamento estudantil em uma quimera. A autoridade monetária ignora que a “resiliência” do consumo é fruto da sobrevivência e da informalidade, e não de um mercado interno saudável e robusto.

Além disso, a política de juros altos do BC impõe um pedágio bilionário ao governo federal. O aumento da taxa Selic eleva exponencialmente os gastos com o serviço da dívida pública. Cada bilhão de reais pago em juros aos especuladores do mercado financeiro é um bilhão que deixa de ir para a saúde, educação, saneamento e infraestrutura.

A ilusão da resiliência sem investimento

O Relatório de Política Monetária celebra uma economia resiliente, mas falha em explicar como essa resiliência poderia ser transformada em desenvolvimento sólido e permanente. Para que o Brasil seja verdadeiramente forte e imune às crises globais e às guerras internacionais, o governo precisa investir maciçamente em logística, energia e tecnologia.

Ao elevar a projeção do PIB para 2%, o Banco Central tenta vender a narrativa de que sua política “funciona”. A realidade, contudo, é que o Brasil poderia crescer muito mais, de forma mais justa e sustentável, se a autoridade monetária parasse de tratar a taxa de juros como a única ferramenta econômica, deixando de ser o maior inimigo do Brasil produtivo para se tornar um parceiro do desenvolvimento nacional.

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