Os Estados Unidos sempre ostentaram a imagem de paladinos da justiça e xerifes do mundo, hábito que se intensificou sob Donald Trump. Com a desculpa do combate ao crime organizado, seu governo vem tentando intervir em países da América Latina, como o Brasil. Mas seu próprio sistema financeiro tem brechas, carece de maior controle e tem sido usado para a lavagem de dinheiro.
Uma investigação a cargo da Polícia Federal (PF) mostrou o uso do sistema Zelle — conhecido como “Pix americano”, mas operado por empresas privadas — para a lavagem de dinheiro oriundo do tráfico internacional de drogas, com ramificações no Brasil e nos Estados Unidos. Segundo apurado, seus operadores seriam ligados ao PCC (Primeiro Comando da Capital).
Na última sexta-feira (3), a PF deflagrou a Operação Exchange, autorizada pela 7ª Vara Criminal Federal de São Paulo. De acordo com as apurações (que tiveram o apoio de agentes do Tesouro estadunidense), os alvos utilizavam um sistema estruturado para a movimentação de recursos, por meio de transferências ilícitas de criptomoedas, operações bancárias de alto valor, repasses entre pessoas físicas e jurídicas e outras atividades financeiras.
Ao todo, foram expedidos 11 mandados de prisão temporária e 13 de busca e apreensão, além do bloqueio e do sequestro de mais de R$ 10 bilhões em bens, valores e criptoativos vinculados a 13 pessoas físicas e 73 pessoas jurídicas.
Como desdobramento, sete pessoas foram presas temporariamente. Uma delas, Stella de Oliveira, foi solta logo depois por determinação da Justiça Federal. A mesma decisão decretou a prisão preventiva de três investigados não localizados: Victor Henrique de Oliveira Shimada, Amauri Henrique de Oliveira e Ygor Fokin Saviolli — este último já estava preso desde janeiro nos EUA.
De acordo com o jornal O Globo, mensagens extraídas de celulares dos investigados “fazem referência ao banco Wells Fargo e ao envio de dados de uma conta pelo Zelle durante tratativas relacionadas à movimentação internacional de recursos”.
Dois dias antes da operação da PF, Shimada e Stella foram sancionados pelo governo de Donald Trump por suposto elo dos dois com o PCC — organização que, assim como o Comando Vermelho (CV), foi classificada como “terrorista” pelos EUA no final de maio.
A BBC Brasil mostrou que, conforme a PF, a sanção do governo Trump acabou alertando os investigados, o que causou prejuízos à operação, que teve de ser adiantada. “(Se) não houvesse essa designação, o desfecho seria outro… não localizamos (Shimada). Houve um prejuízo à investigação”, disse o diretor da PF, Andrei Rodrigues.
Pix x Zelle
Ao contrário do Pix, que é público e operado pelo Banco Central Brasileiro, o Zelle é uma rede de pagamentos digitais controlada pela Early Warning Services, uma empresa privada pertencente a um consórcio dos maiores bancos dos Estados Unidos, incluindo Bank of America, JPMorgan Chase e Wells Fargo.
O currículo desses bancos, aliás, está eivado de fraudes e crimes de toda espécie. Para citar apenas alguns casos, o Bank of America já foi investigado por crimes envolvendo lavagem de dinheiro, fraudes no próprio Zelle e por envolvimento no escândalo de Jeffrey Epstein.
O JP Morgan, por sua vez, ficou negativamente famoso em todo o mundo (junto com outros bancos) por irregularidades e venda de títulos podres que culminaram na crise financeira imobiliária de 2008, entre outros ilícitos. Já o Wells Fargo foi alvo de investigações entre 2002 e 2016 pela abertura de milhões de contas sem consentimento dos clientes, muitas das quais usadas para a lavagem de dinheiro.
Recentemente, em meio às negociações sobre tarifas estabelecidas por Trump, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) cometeu mais um ato de vergonhosa subordinação aos EUA ao defender a flexibilização do Pix em favor do Zelle ou mesmo a adoção deste em detrimento do sistema brasileiro.
Embora haja diferenças entre as duas ferramentas, ambas têm objetivos semelhantes. No entanto, o Zelle, por ser privado, é bem mais limitado (não operando instantaneamente entre todos os bancos e com adesão voluntária dessas instituições), além de nem sempre ser gratuito e ter segurança antifraude menos robusta.
A engenharia do Pix — elaborada por servidores públicos do Banco Central a partir de 2018 —, sua gratuidade e facilidade de uso fizeram do mecanismo o meio mais popular de pagamento do país. Enquanto o Pix tem mais de 200 milhões de transações por dia, movimentando quase R$ 100 bilhões, o Zelle não chega a 10 milhões de operações e um total equivalente a R$ 18 bilhões diários. Ao todo, 2,5 mil instituições oferecem as operações no Brasil, contra 930 nos EUA.
Além disso, o Pix acabou estimulando a entrada de milhões de brasileiros no sistema financeiro, o que beneficiou também as operadoras de cartão de crédito, ao contrário do que argumentam as autoridades dos EUA que tentam inviabilizar a ferramenta.
Fonte: Vermelho