87% DOS POSTS EM GRUPOS MISÓGINOS DO TELEGRAM ATACAM VOTO FEMININO

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Conquista estabelecida há décadas, o voto feminino passou a ser anacronicamente questionado a partir da nova onda da extrema direita. No Brasil, 87% de publicações sobre o tema, feitas em 18 comunidades abertas do Telegram entre dezembro de 2020 e julho de 2026, se posicionam explicitamente contra esse direito adquirido há quase um século no País.

A constatação consta da nota técnica “Ataques ao direito de voto das mulheres na machosfera brasileira”, divulgado nesta segunda-feira (3) pelo Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas (DesinfoPop) da Fundação Getúlio Vargas.

São 126 publicações, um volume pequeno — e ainda bem. Mas impressiona a violência com que essas comunidades tratam o assunto: o voto das mulheres aparece como ‘uma das maiores desgraças da humanidade’, ‘um dos maiores erros da sociedade ocidental’, ‘suicidante pra qualquer civilização.

Paternalismo e hostilidade

Ao se debruçar sobre as falas da machosfera, os pesquisadores perceberam que houve maior concentração desse tipo de postagem a partir de 2024 e que, entre outras características, o assunto é tratado de maneira bastante determinista e enfática, conforme apontou Julie em sua fala.

Para justificar tal posicionamento, os defensores apelam para o que seriam características naturais das mulheres e se utilizam de posições sexistas ora paternalistas, ora hostis.

O primeiro caso (o paternalista), conforme o estudo, é “formalmente elogioso, ligado ao excesso de sentimento e de compaixão, em formulação análoga à da ‘empatia suicida’ que circula na extrema direita norte-americana”. Segundo este conceito, a compaixão e o acolhimento excessivos estariam destruindo os valores da civilização.

O outro tipo de posição, de caráter, hostil, é o de que as mulheres seriam “egocêntricas”, “hipergâmicas” ou mesmo “psicopatas”. “Os dois registros são incompatíveis entre si, mas conduzem à mesma conclusão”, diz a nota técnica. A ideia de que existe uma ‘natureza da mulher’ é sempre perigosa, e aqui vemos como isso se traduz em sexismo paternalista e hostil.

Razões políticas

Ao mesmo tempo, o estudo salienta que a razão efetivamente mobilizada por trás desses argumentos é, em essência, política. Trata-se de uma forma da extrema direita levantar, pela polêmica, questões supostamente já comprovadas por teses pseudo-científicas — por mais anacrônicas e desumanas que possam ser —, a fim de sustentar a defesa de seu ideário contra as posições do campo progressista e de esquerda.

É uma estratégia política, e ela é enunciada sem nenhum constrangimento: mulheres votam à esquerda, portanto não deveriam votar. Chega-se a afirmar que ‘é através do voto feminino que o comunismo próspera’. No fundo, a razão central não é a capacidade das mulheres de votar, é em quem elas votam.

Fonte: Vermelho

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