Por Victória Martins
Fogueira, bandeirolas, quentão e aquela sanfona que embala as noites e coloca todo mundo para dançar coladinho. Está aberta a temporada de um dos nossos festejos mais populares, a Festa Junina! E para um arraiá ser animado de verdade, não pode faltar um ritmo dos mais brasileiros: o forró.
O forró é tão nosso que foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2021. Na ocasião, foi classificado como um “supergênero”, por reunir diversas vertentes, como o xote, o xaxado, o baião e o arrastapé.
Não à toa, o forró também está concorrendo ao título de Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Entregue ao órgão em março deste ano, o pedido faz parte de uma campanha nacional para afirmar a identidade cultural brasileira no cenário internacional, sem deixar de lado as raízes nordestinas do ritmo.
De onde vem o termo “forró”?
A história do forró começa bem antes de ele se espalhar pelas rádios do país. No século 19, populações ribeirinhas ou interioranas do Nordeste se encontravam para cantar e dançar ao som de ritmos populares, especialmente em períodos de boas colheitas.
Eram os forrobodós ou forrobodanças, bailes frequentados por gente “de baixa esfera social” e marcados pelo “violão, sanfona, reco-reco e aguardente”, segundo conta uma nota de 1913 no jornal A Lanceta. Mas o termo é bem mais antigo: aparece na imprensa pelo menos desde 1833 e entra no dicionário em 1889, com o significado de “baile, sarau chinfrim”, conforme registra o folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo, em seu Dicionário do Folclore Brasileiro.
Forró surge, então, como uma abreviação de forrobodó: as duas palavras aparecem como sinônimos já em 1913, na segunda edição do Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Antônio Cândido de Figueiredo. Com o tempo, o termo forró foi popularizado, adquirindo o significado de “arrasta-pé” e “festa animada” e passando a representar tanto um gênero musical de raízes nordestinas — elaborado principalmente a partir da sanfona, da zabumba e do triângulo — quanto um estilo de dança em pares com base no ritmo.
Uma outra versão seria a de que a palavra vem do inglês “for all” (para todos) e faz referência a festas dadas por funcionários de uma companhia britânica de trens em Pernambuco. Esta ideia, porém, costuma ser vista como uma lenda urbana por grande parte dos etimólogos e historiadores do gênero.
Evolução do gênero
Carregado de influências indígenas, africanas e também europeias, o ritmo se espalha pelo Brasil durante o século 20, muito por conta do sanfoneiro Luiz Gonzaga. Conhecido como “rei do baião”, Gonzagão foi o grande responsável por reunir, codificar e recriar as referências da sua infância e suas memórias do sertão nordestino dentro dessa linguagem artística e cultural mais ou menos coesa que hoje conhecemos como forró. Até hoje, títulos que ele compôs, como Asa Branca e Xote das Meninas, estão entre os mais reconhecidos do gênero e são clássicos das festas juninas em todo o país.
Esta primeira fase, atualmente chamada de forró tradicional ou forró pé-de-serra, ganhou fôlego entre os anos 1940 e 1960, traduzindo em música elementos como a cultura campesina, as festas populares, a força da fé e a saudade da terra natal. Além de Luiz Gonzaga, nomes como Jackson do Pandeiro, o Trio Nordestino e Dominguinhos também ajudaram a popularizar o ritmo e promover um sentimento de pertencimento a uma identidade sertaneja nordestina em um crescente público de migrantes nordestinos no Sudeste.
Nos anos 1970 e 1980, o forró passa a flertar com a MPB e com o pop rock, agregando instrumentos como a guitarra, o baixo e a bateria. Nesta época, destacam-se nomes como Alceu Valença, Elba Ramalho, Zé Ramalho, Fagner, Geraldo Azevedo e Gilberto Gil. Já nas décadas de 1990 e 2000, surge no Sudeste o forró universitário, que bebe destas referências anteriores, mas adiciona narrativas mais urbanas, românticas e de apelo jovem. É o caso dos grupos Falamansa, Rastapé e Bicho de Pé.
Na mesma época, no Nordeste, o ritmo se distancia da musicalidade tradicional e passa a se modernizar, incluindo elementos do sertanejo romântico, do axé e da lambada. Este movimento dá origem ao forró eletrônico, representado por grupos como Mastruz com Leite, Calcinha Preta e Aviões do Forró, que costumam incluir mais integrantes e vir acompanhados de um corpo de balé.
Mais recentemente, o forró eletrônico tem se desdobrado em um novo subgênero, a pisadinha ou piseiro, caracterizado por batidas aceleradas, uso do teclado eletrônico e influência do tecnobrega e do xote. Muito associado às vaquejadas, o piseiro tem se espalhado pelo Brasil através de artistas como João Gomes, Zé Vaqueiro e os Barões da Pisadinha.
Ao mesmo tempo, o forró pé-de-serra vem sendo recuperado através de um movimento roots, que busca valorizar a musicalidade e um jeito de dança específicos, mais próximos das referências tradicionais, e reinventar o forró não só em torno da sazonalidade das festas juninas, mas como um estilo de vida. Atualmente, o movimento roots inspira bailes e festivais de grande porte no Brasil e também em países europeus.
Baião, xote ou xaxado?
O forró compreende uma grande variedade de subritmos, normalmente diferenciados pela cadência dos instrumentos e pelo toque da zabumba. O próprio Mestre Dominguinhos, um dos principais representantes do forró pé-de-serra, demonstrava as diferenças práticas entre eles.
- Baião: Assim como o forró pé-de-serra, o baião é caracterizado pelo uso de três instrumentos clássicos (a sanfona, a zabumba e o triângulo), mas é mais acelerado e traz uma marcação mais forte da zabumba e da sanfona. É influenciado por ritmos como o lundu, trazido para o Brasil pelos escravizados bantos, sobretudo de Angola e do Congo, e o coco, dança de roda de origem afro-indígena. (Exemplo clássico: “Baião” – Luiz Gonzaga)
- Xote: Mais lento, romântico e cadenciado, é o ritmo melhor representado pelo popular dois pra lá, dois pra cá. Nasce na Alemanha, originalmente intitulado de schottisch, mas se espalha pelo Rio Grande do Sul e, depois, pelo Nordeste, ganhando um tempero próprio, muito influenciado pelos movimentos africanos. (Exemplo clássico: “Numa Sala de Reboco” – Dominguinhos)
- Xaxado: É caracterizado por passos rápidos, arrastados e marcados por batidas fortes dos pés no chão. Dançado em círculo, em fileira indiana, foi adotado por cangaceiros e, possivelmente, difundido pelo sertão nordestino pelo bando de Lampião. (Exemplo clássico: “Pisa na Fulô” – Marinês e sua Gente)
- Arrastapé: Por fim, é um dos subritmos mais acelerados e animados e, como o nome já sugere, dança-se arrastando os pés pelo salão. É a trilha tradicional das quadrilhas de festa junina país afora. (Exemplo clássico: “Forró do Xenhenhem” – Forróçacana)
Fonte: guiadoestudante